A importância das estruturas da sociedade civil no relacionamento entre os Estados – o caso particular dos Estados Unidos da América.

 

A evolução das relações entre Estados vem sendo marcada, entre outros, por dois fatores fundamentais: a globalização, que veio comprometer uma visão compartimentada – e mesmo hierarquizada – das várias componentes da ação diplomática, e o peso crescente da sociedade civil na definição de posições e prioridades na frente externa, um fenómeno particularmente óbvio em países democráticos, como são Portugal e os EUA. Em suma, não há hoje uma diplomacia política, ou económica, ou cultural, ou científica, mas uma ação externa que abrange e reflete todas essas vertentes; e não existe política externa, em democracia, que possa ser estrangeira ao sentir dos povos cujos interesses pretende servir.

Para qualquer diplomata, não ter presente esta realidade e a necessidade que ela determina de um diálogo íntimo com a sociedade civil do seu país e daquele em que está acreditado, é comprometer gravemente a eficácia e relevância da sua ação; como, simultaneamente, se espera dos diferentes atores e instituições em que se desdobra e afirma a sociedade civil portuguesa que estejam atentos à responsabilidade crescente que lhes cabe na “construção” da imagem do país – elemento fulcral das relações externas. A qualidade dos nossos cientistas, dos nossos empresários, para não irmos mais longe, é hoje tão importante para a perceção que se tem de Portugal, no exterior, quanto a dos nossos diplomatas.

Como não podia deixar de ser, a História do relacionamento entre Portugal e os Estados Unidos – constante prioritária da nossa política externa – é, também, a história deste caminho. Se o início foi determinado, antes de tudo, por considerações geostratégicas e objetivos comerciais, o presente – para que contribuiu, de forma decisiva e definidora, uma consolidação democrática que muito deve ao apoio norte-americano – é hoje feito das exigências que impõe e do potencial que encerra tudo o que é diverso, multifacetado e em constante mutação.

No que à sociedade civil diz respeito, no caso muito particular dos Estados Unidos, Portugal conta com uma vantagem de valor inestimável: o elevadíssimo número dos seus cidadãos, que, por razões sobretudo económicas, escolheu partir à busca, como tantos outros, do sonho americano, e que constitui, hoje, uma comunidade vastíssima – a maior da diáspora portuguesa, em termos absolutos – mais rica e instruída do que a média neste país, e com um papel cada dia mais relevante no tecido social, empresarial, científico, académico e político dos Estados Unidos. Uma comunidade a que se viriam a somar, mais recentemente, os que aqui procuraram o enriquecimento pessoal e profissional que assegura o contacto com alguns dos mais sofisticados centros de excelência académica e científica, do mundo. É o caso, designadamente, de quantos compõem a Portuguese-American Post-Graduate Society.

A esta comunidade portuguesa e luso-americana – nas suas várias valências e matizes – devemos, em larguíssima medida, o capital de simpatia de que aqui disfrutamos e a excelente imagem de que Portugal beneficia, nos EUA.

A Portugal interessa que a inserção desta comunidade na sociedade norte-americana seja tão plena quanto possível, porque só assim ela será realmente influente; que a natural  individualidade própria de cada uma das entidades em que ela se reúne não comprometa ações conjuntas, porque só assim ela saberá fazer valer a força dos seus argumentos, sempre que o objetivo é comum; que ela saiba encontrar o justo equilíbrio entre a defesa das raízes que a distinguem, e a modernidade do país de onde veio e daquele que a acolheu, porque só assim saberá ser intérprete e mensageira do tempo presente, e só assim garantirá o seu próprio futuro.

Se é este o interesse de Portugal, é para ele que se exige que trabalhe quem aqui oficialmente o representa: valorizando os múltiplos exemplos de sucesso dos portugueses e luso-americanos neste país; promovendo a congregação de esforços em torno de causas partilhadas; contribuindo para que seja maior o conhecimento de Portugal, nação secular, mas também exemplo de dinamismo, modernidade e criatividade.

Tudo isto pressupõe um diálogo intenso, aberto e constante com a comunidade. Com as suas estruturas associativas e respetivos representantes, mas também com quem as não integra. Um diálogo que permita identificar problemas, mas também oportunidades. Um diálogo que seja, antes de tudo e para lá de tudo, reflexo de parceria.

 

Domingos Fezas Vital,

Ambassador of Portugal to the United States